Oi...meu blog foi feito e hoje fiquei pensando o que escreveria, que experiência poderia compartilhar, ai me lembrei de quando me mudei para o Rio de Janeiro....
Foi no ano de 2000. A minha vida estava totalmente estruturada, minha filha numa escola boa, meu marido trabalhando e eu também. Aliás, eu trabalhava naquilo que realmente gostava, tudo corria estilo família feliz, até que vem a noticia...
"Recebi uma proposta de promoção na Empresa, só que para isso, precisamos nos mudar de São Paulo e morar no Rio de Janeiro..." foi a bomba do ano!!!!!! E agora....
Tivemos várias conversas, discutimos os prós e os contras, coisa comum de se fazer numa situação dessas e , mesmo com toda minha resistência, decidimos que seria o melhor...
Apesar de ter sido muito difícil pra mim, o meu maior problema era com minha filha que , com 7 anos, já adaptada na escola, com amigos , também sentiria com a mudança. Tentamos, na época, explicar-lhe a nossa decisão, já que não cabia a ela, decidir naquele momento.
Partimos a procura de um lugar para morarmos, não tínhamos referência de nada, a não ser das reportagens que víamos na TV, nos apresentando um Rio de Janeiro, extremamente violento. Isso nos assustava, a mim principalmente, mas a decisão já havia sido tomada.
Tudo resolvido, apartamento na Barra da Tijuca alugado (lá nos falaram que seria mais tranquilo) agora as providências:
Pedir demissão do meu Emprego : Na época trabalhava na APAE de São Paulo e me identificava muito com o que fazia, adorava o meu trabalho. Estava num momento interessante, viajava muito, multiplicando as ações que desenvolvíamos e ministrando cursos. Deixar esse espaço, era como deixar um pouco de mim...Mas, foi esse mesmo trabalho que me impulsionou a levar adiante essa mudança. Não se trata de contradição. Atuava como psicóloga num grupo multidisciplinar, e tínhamos como função desenvolver ações que gerassem o fortalecimento, independência e auto gestão de famílias de pessoas com deficiências. Havia chegado o momento de transportar esse trabalho para a minha família e incorporá-lo.
Procurar uma escola para Ana Flavia, minha filha, parecia outro tormento, mas pude contar com a ajuda da escola, que me indicou e orientou em relação às necessidades e potencialidades da minha filha, sugerindo o Colégio Faria de Brito, na própria Barra da Tijuca . Recebi nesse momento, muito carinho e pude perceber o quanto éramos queridos no Colégio Magno.. as coisas estavam se tornando mais tranquilas, ou minha ansiedade parecia estar sob controle.
Algumas "festinhas" de despedida foram organizadas, no condomínio onde morávamos, na escola, no trabalho e toda choradeira e insegurança apareciam nesses momentos...Apesar, dos mais variados sentimentos estarem presentes, a maioria deles, negativos em relação a mudança, alguns poucos planos começavam a ser feitos.
Apartamento alugado, com muita dificuldade, pois algumas diferenças culturais começavam a ser evidentes. Optamos por morar num condomínio de prédios , pois acreditávamos que assim, a nossa filha poderia ter mais facilidade em conhecer novos amigos. Fato, que posteriormente, percebemos, não ser real. O apartamento que escolhemos, era bem maior e melhor do que tínhamos em São Paulo, o que já nos indicava, que pelo menos , teríamos um padrão de vida melhor.
Minha mãe, que até então cuidava da Ana Flavia, durante minhas ausências , foi
"transferida" pro Rio também, o que nos ajudou muito.
Mudamos para a Cidade Maravilhosa, no final do ano, bem próximo ao Natal e na mesma semana que estávamos lá, já recebemos familiares e amigos em nossa casa.
Tudo estava correndo bem, aqueles sentimentos e fantasias que tinha , aos poucos foram se diluindo e a nova realidade foi sendo incorporada.
Inicialmente, tudo era festa : ir a praia, olhar o mar todos os dias, caminhar, tomar água de coco na orla, tudo sem trânsito e me parecendo seguro. A mudança parecia ter sido a melhor decisão, e foi!
Nem tudo foi mil maravilhas, tivemos muitos problemas na nova cidade, aquela rixa entre São Paulo e Rio de Janeiro, extrapolavam o Estádio de Futebol, começava a me achar uma estranha no ninho , o melhor lugar da cidade parecia ser o Aeroporto, que me traria de volta a minha cidade natal.
As aulas começaram, a rotina se estabeleceu, não conhecíamos ninguém, as adaptações foram feitas, e acreditem, apesar do Rio de Janeiro estar a poucos quilômetros de distância de São Paulo, pudemos sentir a diferença cultural entre as cidades , o que certamente nos enriqueceu. Ora, nos proporcionando o reconhecimento de pontos positivos de nossa cidade, ora aprendendo a conviver com novas situações.
Passamos quase quatro anos no Rio, conhecemos pessoas maravilhosas, que se tornaram, pessoas da família. Nos deparamos com pessoas que nos rejeitavam, pelo simples fato de sermos "paulistas". Aprendemos a ser mais light com as coisas, incorporamos um pouco do jeito" carioca "de ser. Saiamos com mais frequência, estávamos sempre cercados por amigos e familiares , conheci pratos deliciosos, e o feijão preto, passou a ser o nosso feijão. Já sabia andar pela cidade, conhecia os lugares mais perigosos, portanto, que precisavam ser evitados, a Ana Flavia já tinha amigos na escola ( isso será outro tema, pra ela, as coisas não fluíram bem, na verdade a experiência foi péssima), meu marido estava enfrentando problemas no trabalho, mas isso já era algo assimilado e previsto. Tudo perfeito e parecendo ter valido a pena.
Mas, pra que dizer tudo isso, contar um pouco dessa história ...simplesmente pra compartilhar uma experiência.
Para poder dizer..."que tudo vale a pena, quando a alma não é pequena...foi com a alma aberta, que fomos pra lá, que buscamos transformar o desconhecido , num amigo, que tentamos buscar o que tínhamos de mais real e sólido naquele momento, a nossa família.
Que podemos ousar, arriscar e viver algo diferente...
Que somos capazes de nos adaptar...
Que precisamos e podemos trabalhar os nossos preconceitos...
Que a vida não é feita de momentos felizes, mas que as dificuldades, podem nos levar a ela....
Que a noite frenética de São Paulo faz falta, mas que o dia de sol na praia, é muito reconfortante...
Que escolhas são necessárias e o que fazemos delas é nossa responsabilidade.
Que lancheira, é merendeira...
Que coxão mole , é coxão de dentro (ou fora, nunca lembro...)
Que sorvete de palito, é picolé...
Que joelho, é um sanduiche delicioso!
Que ....se alguém estiver nessa situação agora e quiser bater um papinho, estou por aqui.